Kaula’s Journey to Impactful Sign Language Interpretation in Africa

Marcas de setembro Mês da Consciencialização da Surdez, O evento é um momento para celebrar a cultura surda e defender a inclusão. No seu cerne está Dia Internacional das LÃnguas Gestuais, O Parlamento Europeu, ao recordar-nos que a lÃngua falada ou assinada é uma ponte para a igualdade e a dignidade.
Neste espÃrito, sentámo-nos com Leonida Kaula, um célebre intérprete, professor na Universidade de Nairobi, autora e co-fundadora de uma agência de interpretação de lÃngua gestual. Verdadeira pioneira, Leonida ajudou a transformar a interpretação num domÃnio profissional, ao mesmo tempo que amplificou as vozes das minorias linguÃsticas.
Neste artigo, partilha a forma como o seu trabalho está a transformar a profissão e a reimaginar um futuro mais inclusivo.
Pode falar um pouco sobre o seu percurso pessoal, o que o inspirou a tornar-se intérprete de lÃngua gestual?
O meu percurso no mundo da lÃngua gestual começou em meados dos anos 90, quando era membro de uma igreja frequentada por uma mulher surda. Na altura, não havia interpretação disponÃvel e a minha irmã mais velha escrevia notas para ela durante os sermões. Todos os domingos, eu cumprimentava a mulher surda ao lado da minha irmã, e ela tentava responder-me com um sinal. Esta simples interação despertou o meu interesse e ela acabou por me indicar um local onde eu poderia aprender a LÃngua Gestual Queniana (KSL).
Pouco depois de me inscrever, foi-me oferecido um lugar como secretária na mesma instituição, o que me deu a vantagem única de aprender rapidamente a lÃngua gestual através da interação diária com colegas surdos. Imersa na comunidade surda, comecei a interpretar informalmente, pois havia muito poucos intérpretes na altura.
Fiquei imediatamente fascinada com a riqueza da cultura surda, a narrativa expressiva, o humor e a utilização poderosa das expressões faciais. Descobri uma lÃngua vibrante e visual e um mundo silencioso do qual me senti bela e profundamente realizada por fazer parte. Apenas dois anos após o inÃcio da minha viagem, tive a rara oportunidade de receber formação como intérprete e formador profissional de lÃngua gestual, através de um programa patrocinado pela Associação Dinamarquesa de Surdos e pelo Centro de LÃngua Gestual e Comunicação Apoiada por Sinais na Dinamarca.
Essa formação marcou um ponto de viragem na minha vida. Abriu-me os olhos para o campo profissional da interpretação de lÃngua gestual e para o profundo impacto da comunicação entre as comunidades surda e ouvinte. Desde então, nunca mais olhei para trás.
Qual foi a parte mais gratificante de trabalhar como intérprete até agora?

A parte mais gratificante do meu trabalho como intérprete de lÃngua gestual tem sido o privilégio de facilitar uma comunicação significativa entre surdos e ouvintes, fazendo a ponte entre mundos que, de outra forma, permaneceriam desligados. Cada vez que faço interpretação, testemunho o poder da participação plena: Uma pessoa surda a contribuir com confiança numa reunião de alto nÃvel, a aceder a informação crÃtica, ou simplesmente a ser ouvida em espaços onde a sua presença poderia ter sido ignorada.
Beyond the act of interpreting, I have found deep fulfillment in teaching and mentoring emerging interpreters and contributing to the growth of the profession. Watching former students and mentees evolve into confident, skilled professionals, and knowing I played a part in strengthening the field, is incredibly gratifying.
My involvement in the formation of the Kenyan Sign Language Interpreters’ Association in 2001, and the opportunity to serve as its chair for 10 years, allowed me to help shape the development of the profession in Kenya. It also enabled me to collaborate with Deaf leaders in advocating for the recognition of Kenyan Sign Language (KSL) and promoting accessibility for Deaf individuals.
Ultimately, the relationships I’ve built within the Deaf community, and the opportunity to contribute to inclusion, equity, and the recognition of Kenyan Sign Language as a vital part of our national identity, have given my career lasting purpose and meaning.
É cofundador do CESLIS (Centro de Serviços de Interpretação de LÃngua Gestual). O que o motivou a criar esta organização e que impacto teve até à data?
Following the promulgation of Kenya’s 2010 Constitution, which recognized Kenya Sign Language (KSL) and affirmed the right to accessibility for Deaf individuals, there was a significant increase in demand for sign language interpretation services across various sectors. No entanto, na ausência de normas nacionais para regulamentar a profissão, muitas organizações começaram a contratar intérpretes sem um quadro estruturado para avaliar as suas qualificações ou competências. Consequentemente, os indivÃduos eram muitas vezes contratados diretamente, com pouca ou nenhuma verificação das suas capacidades ou experiência.
Recognizing this critical gap, I co-founded the Centre for Sign Language Interpreting Services (CESLIS), Kenya‘s first interpreting agency alongside another experienced interpreter. Our goal was to provide a reliable and professional link between organizations and qualified sign language interpreters, ensuring access to competent and skilled professionals.
Sendo uma agência dirigida por intérpretes em exercÃcio e apoiada por um grupo de profissionais controlados, a CESLIS está empenhada em prestar serviços de interpretação de elevada qualidade. Ao fazer corresponder o intérprete certo a cada trabalho, a CESLIS mantém os padrões profissionais e a responsabilidade, ajudando a elevar a fasquia dos serviços de interpretação em todo o paÃs.
Equally important to me was creating a platform for professional growth. As someone deeply passionate about training and mentoring the next generation of interpreters, I envisioned CESLIS as more than a service provider, it would be a hub for development. Over the years, I have organized numerous training sessions and mentorship programs through the agency, and a significant number of today‘s practicing interpreters have benefitted from these initiatives.
Embora outras agências de interpretação tenham surgido desde então, a CESLIS continua a ser pioneira. Continua a distinguir-se como uma plataforma para o crescimento dos intérpretes e é amplamente reconhecida pelo seu compromisso com o profissionalismo, a integridade e a excelência na prestação de serviços.
Acreditamos em retribuir à comunidade que servimos. Como parte deste compromisso, oferecemos frequentemente os nossos serviços pro bono a indivÃduos surdos, fornecendo interpretação para assuntos pessoais, bem como durante eventos e actividades da comunidade. Estes incluem ocasiões como a Semana Internacional dos Surdos e eventos organizados por organizações lideradas por surdos que procuram a nossa colaboração e apoio. Fazemo-lo porque acreditamos firmemente no poder da colaboração e da solidariedade comunitária.
Que papel considera que o CESLIS desempenha na promoção da capacitação e inclusão dos surdos a longo prazo?
A longo prazo, vejo a CESLIS a desempenhar um papel crÃtico e multifacetado na promoção da capacitação e inclusão dos surdos no Quénia. Como pioneiro na prestação de serviços profissionais de interpretação de lÃngua gestual, o CESLIS está numa posição única para influenciar tanto a polÃtica como a prática na forma como a acessibilidade da comunicação é fornecida e compreendida.
Em primeiro lugar, o CESLIS continuará a servir como um parceiro de confiança para as organizações que procuram envolver-se com a comunidade surda de uma forma significativa e respeitosa. Ao garantir o acesso a intérpretes competentes, ajudamos a desmantelar as barreiras de comunicação que historicamente têm excluÃdo os indivÃduos surdos da plena participação na educação, no emprego, nos cuidados de saúde e na governação.
Beyond service provision, CESLIS is deeply committed to capacity building both within the interpreting profession and the Deaf community. We aim to expand our training and mentorship programs, not only to raise the standards of interpreting, but also to support the development of Deaf interpreters a concept still relatively new in Kenya. Additionally, we are focused on promoting Deaf-led initiatives and collaborating with stakeholders to influence inclusive and progressive policy frameworks.
De onde vem a sua paixão pela lÃngua gestual e pela defesa dos surdos?
Aprender a lÃngua gestual abriu um mundo e uma cultura maravilhosos que despertaram algo profundo dentro de mim. Fiquei cativada pela riqueza da comunicação na comunidade surda, especialmente pelas histórias contadas de forma tão viva através das expressões faciais, da linguagem corporal e do movimento. Era uma forma de expressão diferente de tudo o que eu tinha experimentado antes; autêntica, visual e profundamente humana.
Através de interações sociais com indivÃduos surdos, os meus olhos abriram-se não só para o poder expressivo da lÃngua, mas também para o imenso potencial da comunidade surda quando lhe é dado acesso à comunicação e à informação. Senti um forte desejo de aprender mais, não só sobre a lÃngua, mas também sobre as pessoas, a sua cultura e as suas experiências. Queria fazer parte desse mundo.
I come from a time when Deaf children in my community rarely had access to formal education. For those who did attend school, opportunities were often limited to vocational training, with little chance of progressing to secondary education or beyond. However, the introduction of sign language as a medium of instruction in schools and its recognition as the official language of Deaf Kenyans has brought about meaningful change. I have witnessed Deaf individuals thrive academically, pursue diverse careers and interests, and excel in their chosen paths once they are provided with the right tools, support, and access to communication.
A minha paixão deriva da profunda satisfação que sinto quando vejo pessoas surdas a realizarem todo o seu potencial. Saber que a lÃngua gestual não é apenas um meio de comunicação, mas uma ferramenta poderosa para a inclusão, a independência e a auto-expressão continua a inspirar e a impulsionar o meu trabalho de sensibilização. É uma chave que abre o acesso à educação, ao emprego, à participação cÃvica e, em última análise, a uma vida plena e significativa para os indivÃduos surdos.
Na sua opinião, o que significa a verdadeira inclusão das pessoas surdas na vida quotidiana, nos locais de trabalho e nas comunidades?
Para mim, a verdadeira inclusão das pessoas surdas na vida quotidiana significa garantir o acesso à comunicação, à igualdade de oportunidades e a serviços inclusivos em todos os sectores. Isto inclui uma educação acessÃvel, cuidados de saúde, o sistema judicial e os meios de comunicação social. Imagino uma sociedade em que a educação dos surdos não só seja acessÃvel, mas também capacitadora, ou seja, que permita aos indivÃduos surdos realizarem todo o seu potencial em qualquer carreira que escolham, seja no meio académico, no trabalho de escritório, no desporto ou nas artes criativas. É necessário que haja espaço para que os indivÃduos surdos com talentos diversos, especialmente nas artes criativas, possam prosperar e ser reconhecidos.
Para além do acesso à comunicação, os locais de trabalho também devem ser inclusivos e adaptados. Considero irrealista esperar que os empregados surdos sejam totalmente produtivos e empenhados sem lhes dar o apoio necessário e proporcionar ambientes acessÃveis. A acessibilidade deve ser uma parte integrante da conceção organizacional e não uma reflexão tardia.
Deaf representation in leadership and decision-making spaces is absolutely essential. While I can, and in fact do advocate for the Deaf community, being part of that community has taught me that only Deaf individuals can fully articulate their needs and priorities because they speak from lived experience. Their presence at the table is not just important; it is vital to ensuring that policies and systems are truly inclusive, equitable, and responsive to their realities.
Além disso, as comunidades devem ser sensibilizadas e dotadas de competências básicas para se envolverem de forma significativa com os indivÃduos surdos. Quando as barreiras de comunicação são quebradas a nÃvel comunitário, as pessoas surdas podem participar plenamente no trabalho, na educação e na vida cÃvica, tal como as pessoas ouvintes.
Quais são alguns dos maiores desafios que as pessoas surdas ainda enfrentam atualmente no que diz respeito à acessibilidade e à comunicação?
As pessoas surdas enfrentam frequentemente barreiras de comunicação significativas devido à falta de intérpretes de lÃngua gestual qualificados em espaços crÃticos como hospitais, faculdades, esquadras de polÃcia, bancos e muitos outros serviços públicos e privados. Embora os intérpretes possam ocasionalmente ser disponibilizados, surgem frequentemente problemas de qualidade. Isto deve-se, em grande parte, ao facto de os responsáveis pela contratação de intérpretes não terem, muitas vezes, os conhecimentos necessários para avaliar as suas qualificações ou competência; em parte, devido à ausência de mecanismos reguladores para a profissão de intérprete de lÃngua gestual no Quénia.
Nalguns casos, a acessibilidade é tratada como uma formalidade. Os intérpretes são contratados simplesmente para preencher um formulário, sem garantir que possam satisfazer as necessidades efectivas de comunicação dos surdos. Esta situação conduz a situações em que os serviços de interpretação estão tecnicamente presentes mas são funcionalmente ineficazes.
Outro grande desafio ocorre quando os intérpretes não têm a capacidade de exprimir corretamente a voz dos indivÃduos surdos. Nesses casos, as ideias da pessoa surda podem ser deturpadas, levando o público ouvinte a considerá-la erradamente como inarticulada ou incapaz. Este tipo de falha de comunicação não só mina a credibilidade dos indivÃduos surdos, como também reforça os estereótipos negativos e aprofunda a sua exclusão social.
Como é que as organizações e instituições podem trabalhar melhor com os intérpretes para garantir uma participação significativa das pessoas surdas?
As organizações devem assegurar a disponibilização de intérpretes de lÃngua gestual competentes para facilitar uma participação significativa dos indivÃduos surdos. Se não tiver a certeza de como encontrar intérpretes qualificados, é aconselhável consultar pessoas surdas para obter recomendações. Além disso, as instituições contratantes devem contactar previamente os intérpretes para saberem como trabalhar com eles de forma eficaz. Os intérpretes devem receber todas as informações relevantes, incluindo pormenores sobre a tarefa, o programa do evento, os apresentadores e quaisquer documentos que necessitem de ser revistos.
É igualmente importante informar os participantes ouvintes de que estarão presentes indivÃduos surdos e fornecer-lhes conhecimentos básicos sobre a cultura surda, bem como orientações sobre como trabalhar eficazmente com intérpretes de lÃngua gestual. Isto pode ser conseguido através de uma breve sessão de sensibilização no inÃcio do evento. Se não houver um facilitador disponÃvel, um dos participantes surdos pode ser convidado a partilhar alguns pontos-chave sobre como interagir de forma respeitosa e inclusiva com indivÃduos surdos. Muitas pessoas surdas têm experiência em trabalhar com intérpretes para ajudar a transmitir esta informação, assegurando uma comunicação fluida e eficaz com audiências ouvintes.
Com o surgimento da IA e das novas tecnologias que oferecem serviços de interpretação, qual é a sua perspetiva sobre as oportunidades e limitações destas em relação aos intérpretes humanos?
Embora pense que as ferramentas de IA irão colmatar certas lacunas, como a prestação de informações em espaços públicos como os aeroportos ou em situações em que os intérpretes humanos não estão disponÃveis, continuam a ter limitações significativas. Considero a diversidade das lÃnguas gestuais em todo o mundo como um grande desafio. Qualquer inovação em matéria de IA terá de ser adaptável a várias lÃnguas gestuais e não apenas a uma. Pergunto-me também como é que a IA interpretará com precisão sinais não manuais, como expressões faciais, olhares e movimentos corporais, que são componentes essenciais da comunicação em lÃngua gestual.
As tecnologias de IA são também dispendiosas e, em grande medida, inacessÃveis a muitos, especialmente em paÃses como o Quénia, onde muitos surdos vivem em zonas rurais sem acesso fiável à Internet.
Participei recentemente numa conferência internacional para surdos, onde a intersecção da IA e da lÃngua gestual foi um dos principais tópicos de discussão. Tornou-se evidente que as actuais ferramentas de IA ainda não satisfazem eficazmente as necessidades de comunicação dos indivÃduos surdos. Uma preocupação significativa é o facto de muitas destas inovações terem sido desenvolvidas sem um envolvimento significativo dos utilizadores surdos, tornando-as menos susceptÃveis de responder aos desafios da vida real. Além disso, foram levantadas questões éticas, nomeadamente em relação à privacidade dos dados e ao consentimento informado.
As interpreters, we do more than just convey signs, we bring empathy, emotional nuance, and real-time, responsive feedback to our work. Human interpreters offer emotional intelligence, cultural awareness, and contextual understanding qualities that AI, at its current stage, cannot replicate.
Também respondemos a situações dinâmicas e a acontecimentos inesperados à medida que se desenrolam em tempo real. A nossa capacidade de nos adaptarmos rapidamente, de gerirmos dinâmicas interpessoais complexas e de fornecermos uma interpretação culturalmente adequada é algo que os sistemas de IA ainda não estão equipados para resolver eficazmente.
Devo admitir que existe uma grande atividade entre os inovadores que estão continuamente a conceber e a redesenhar soluções. Num futuro próximo, é provável que vejamos inovações que abordem um número significativo de desafios de acessibilidade.
Olhando para o futuro, qual é a sua visão para o futuro da interpretação de lÃngua gestual e da inclusão dos surdos na sua comunidade e não só?
Imagino um futuro em que existam programas de formação de intérpretes de lÃngua gestual bem estabelecidos, permitindo que os aspirantes a intérpretes se inscrevam e recebam formação profissional de alta qualidade em interpretação de lÃngua gestual. À semelhança de outras profissões, também espero ver o sector da interpretação de lÃngua gestual devidamente regulamentado, assegurando que os intérpretes em exercÃcio sejam licenciados, certificados e sujeitos a normas profissionais.
Atualmente, o projeto de lei sobre a lÃngua gestual queniana está a ser submetido a um processo parlamentar, com o objetivo de estabelecer um conselho regulador para a profissão. Tenho esperança de que este projeto de lei seja aprovado, de modo a que apenas intérpretes qualificados e certificados sejam autorizados a exercer a profissão, protegendo assim a integridade da profissão e os direitos dos utilizadores surdos.
Como Representante da Região Africana da Associação Mundial de Intérpretes de LÃngua Gestual (WASLI), estou profundamente empenhado no crescimento da profissão de intérprete de lÃngua gestual em todo o continente. Encorajo as associações de surdos e as organizações de intérpretes em vários paÃses a defenderem consistentemente o reconhecimento constitucional das lÃnguas gestuais, bem como a criação de programas de formação de intérpretes profissionais.
Currently, only four African countries Uganda, Zimbabwe, Kenya, and South Africa, have recognized their national sign languages in their constitutions. Such recognition is a vital step toward empowering Deaf communities and strengthening the sign language interpreting profession throughout the region.
Anseio por um futuro em que os indivÃduos surdos estejam plenamente incluÃdos em todos os aspectos da sociedade, em que tenham igual acesso à educação, ao emprego e aos serviços públicos e em que possam seguir as carreiras da sua escolha sem discriminação. Em última análise, não devem ser negadas oportunidades a ninguém simplesmente devido à s suas necessidades de comunicação ou acessibilidade.
Africa Career Networks
Deixe um comentário
Tem de iniciar a sessão para publicar um comentário.